domingo, 2 de junho de 2019

Eslavos do Sul.


Canhão croata dispara contra posições sérvias; Guerra da Bósnia (1992-1995). Imagem da internet.

                Durante a sua agonia o Império Romano, foi invadido, destruído e ocupado, na parte ocidental por povos bárbaros como, suevos, francos, vândalos, visigodos, hérulos, ostrogodos, burgùndios, alamanos, etc.; todas de origem germânica, que fundaram reinos independentes, catequizados, pela Igreja e que originariam alguns países da Europa atual. A parte oriental do Império Romano sobreviveria, adquirindo nova identidade, conhecida como Império Bizantino, até 1453 d.C, quando a capital Constantinopla é conquistada pelos turcos de Mehmet II al Fatih, o Conquistador. Porém, mesmo com a reconquista de da península itálica por Justiniano, algumas invasões ocorrem no setor oriental, com a conquista de territórios ao longo do Mar Adriático e da cadeia de montanhas conhecidas como Balcãs. Essa nova onda de invasões foi realizada por eslavos, povos de origem indo-européia, oriundos, segundo alguns autores dos Montes Cárpatos, ou das imediações do Rio Danúbio, segundo outros. Os eslavos estão divididos em 3 grandes grupos: eslavos ocidentais, como russos, bielo-russos e ucranianos; e meridionais, integrando, búlgaros, sérvios, croatas e eslovenos. Os russos dominaram o atual Leste Europeu e a Sarmátia (nome antigo da região entre as atuais Ucrânia e Rússia), enquanto que os eslavos meridionais em 560 d.C, começam a invadir o território romano, ocupando a Macedônia, para em 640 apoderem-se da Dalmácia. No final do século VIII, formavam-se os reinos búlgaro, croata e sérvio, no sudeste da Europa.
                  Com a expansão do cristianismo, os eslavos meridionais, dentre eles os sérvios, são convertidos finalmente no ano de 868, à Igreja de Roma até o cisma de Constantinopla em 1054, que separa a Igreja Ortodoxa da influência do papa. Durante a expansão do Império Otomano nos Balcãs, sérvios e bósnios são derrotados pelos turcos na batalha de Kosovo em 1389, enfraquecendo o Reino dos Sérvios até o seu desaparecimento após as campanhas de Mehmet II. Com a anexação dos estados dos sérvios e bósnios, os mesmos permanecem sob jugo dos turcos até meados do século XIX. Em 1804, os sérvios iniciaram um levante contra as autoridades turcas, exigindo autonomia dentro do Império Otomano, e mais tarde a independência. Comandados por Kara George, os rebeldes sérvios lutaram até a aniquilação de suas forças pelos turcos e a reocupação total da Sérvia em 1813. Após a Guerra da Criméia (1854-1856), as potências europeias, França, Inglaterra e Áustria impuseram um acordo para a Rússia e a Turquia. Em 1878, como resultado, a Sérvia e Montenegro tornam-se independentes, enquanto que a Bósnia-Herzegóvina é entregue para administração do Império Austro-Húngaro, ficando apenas a Macedônia sob domínio turco. No ano de 1908, a Áustria  anexa a Bósnia, contrariando os interesses da Sérvia que, juntamente com outros países balcânicos consegue expulsar os turcos da Macedônia, dividindo-a com a Grécia e a Bulgária em 1913. Como afirmado, a Áustria anexou a Bósnia-Herzegóvina, ferindo interesses sérvios, cujo nacionalismo instigado pela Rússia explodiu no dia 18 de junho de 1914. Nesse dia, o herdeiro do trono austro-húngaro, Franz Ferdinand e a esposa Sophie visitavam Sarajevo, capital da Bósnia, o que foi considerado um ultraje para os sérvios. Dois estudantes sérvios Gravilo Prinzip e Tchabrinovitch assassinaram o casal, cumprindo uma conspiração acertada, segundo autoridades austríacas, em Belgrado, capital da Sérvia. O episódio foi a causa imediata da Primeira Guerra Mundial em que a Sérvia fora invadida pela Áustria e socorrida pela Rússia; para socorrer a Rússia entraram França e Inglaterra e para socorrer a Áustria, intervieram o Império Alemão (II Reich) e o Império Otomano.
                  Encerrado o conflito mundial que determinou o desaparecimento dos grandes impérios centrais como o alemão, austríaco e o turco, e redesenhou o mapa da Europa no ano de 1918, é proclamado o Reino dos Sérvios, Croatas e Eslovenos, cujo monarca é Pedro I, da Sérvia. Com o falecimento deste assume Alexandre I, que reprime logo um movimento separatista croata. Com a vitória, o monarca altera o nome do país para Iugoslávia, que na língua eslava significa “eslavos do sul”. Em 1941, a Iugoslávia adota uma posição pró-Eixo, durante a Segunda Guerra Mundial, através da decisão do Príncipe Paulo; o que revolta um grupo de patriotas que depõe o monarca, assumem o poder e assinam tratado de não agressão com a URSS. Tal fato motivou Hitler a invadir a Iugoslávia, bombardeando Belgrado com o auxílio de búlgaros, húngaros e austríacos. Em 1943, ainda no cenário da Segunda Guerra Mundial, é deflagrada uma guerra civil entre os monarquistas, apoiados pelos nazistas e liderados por Draja Mihailovic e os partisans comunistas, comandados pelo croata Josip Broz, o Marechal Tito. Estes saem vitoriosos e, em 1945, quando vencem os monarquistas, expulsam os alemães e instalam a República Popular da Iugoslávia. Após assumir o novo governo, Tito inicia o processo de civilização e manda executar Mihailovic. A nova nação é composta então de seis repúblicas eslavas, que apesar de pertencerem ao mesmo grupo étnico, diferem-se pela religião. A composição da Iugoslávia era de: Sérvia, Montenegro e Macedônia, praticantes do credo cristão ortodoxo; Croácia e Eslovênia, seguidoras do rito católico romano, e Bósnia-Herzegóvina, mulçumana. Inicialmente alinhado à URSS stalinista, Tito rompe com Moscou após vários desentendimentos e define um modelo próprio de socialismo. Apesar de considerar a medida como uma afronta, a URSS não invade a Iugoslávia, como faria em 1956 com a Hungria e em 1968 com a Tchecoslováquia. Na década de 1960 Tito implanta uma série de reformas com o objetivo de alcançar o “socialismo de mercado”, cujo resultado foi crise financeira, desemprego, inflação e endividamento externo, devido às peculiaridades de cada sistema econômico, diametralmente opostos.
                  Pouco antes de sua morte em 1980, Tito cria o sistema de presidência rotativa, que deveria ser exercida por cada uma das seis repúblicas que compunham a federação. O que Tito queria evitar ocorreu na década de 1990; em maio de 1991, era a vez do croata, Stipe Mesic, assumir a presidência da Iugoslávia. Como os sérvios impediram a posse, foi convocado um plebiscito. No dia 25 de junho de 1991, a Croácia e Eslovênia declararam sua independência, sendo reagida pela Sérvia com uma guerra civil de sete meses. A Iugoslávia, sonhada por Tito foi “sepultada” em 15 de janeiro de 1992 com o reconhecimento da Eslovênia e Croácia, por parte da Europa e pela ONU. Em março de 1992, seguindo o exemplo, a Bósnia e a Macedônia também declararam a independência, enquanto Montenegro permanecia fiel à Sérvia  e formariam a Nova Iugoslávia. A situação da Macedônia foi mais tranquila, pois a população sérvia em seu território não atingia 1%, mas o mesmo não ocorreu com a Bósnia. A declaração de independência provocou outro conflito, devido ao fato de a minoria sérvia na região, apoiado pelo Exército da Nova Iugoslávia passou a atacar os bósnios e croatas locais, conseguindo cercar Sarajevo. Com o avanço rápido dos sérvios, apoiados pela Rússia que defendia o embargo de armas aos bósnios, a ONU criou as áreas “protegidas” na Bósnia, como, além da capital, as cidades de Tula, Bihac e Srebrenica, sem sucesso. Como croatas na Bósnia, liderada por Mate Boban, também tornaram-se alvos dos sérvios, o Presidente Franjo Tudman ordena a intervenção da Croácia entrou no conflito entre 1993 e 1994, pulverizando as forças inimigas na forma de um  “rolo compressor croata”. Em resposta os sérvios bombardearam a histórica cidade portuária medieval de Dubrovinic, na Dalmácia, região croata no Mar Adriático, causando indignação internacional.
                  Entretanto, o que causou repulsa mundial foi a prática de “limpeza étnica”, promovida pelos sérvios na Bósnia. Na queda de Srebrenica, “protegida” pela ONU, por volta de 1994, cerca de 8.000 pessoas, entre velhos, mulheres e crianças foram executadas pelos sérvios, ordenada por Ratko Miladic, comandante militar sob as ordens de Radovan Karadizic, considerado pleo Ocidente como o “carniceiro dos Balcãs”, apoiado por sua vez por Slobodan Milosevic, presidente da Iugoslávia. Diante das atrocidades, a ONU autorizou a OTAN a bombardear posições sérvias, forçando um armistício que resultou no Acordo de Dayton, mediado pelos EUA, criando uma federação bósnio-servo-croata na Bósnia no ano de 1995. O conflito causou mais de 250 mil mortos. Porém, em 1999, a região de Kosovo pleiteia a independência e novo conflito se inicia entre os sérvios e a população de origem albanesa. Temendo novas atrocidades, a ONU e a OTAN intervém, bombardeando, além das posições sérvias, a própria Belgrado, irritando a Rússia, tradicional aliada. Dessa forma, russos também enviam contingentes a Kosovo, após a retirada da Sérvia. Em 2001, Slobodan Milosevic é derrotado nas eleições presidenciais, por políticos alinhados ao Ocidente e entregue ao TPI (Tribunal Penal Internacional). No ano seguinte, o novo governo, pressionado pelo mundo “livre”, suprime o nome “Iugoslávia”, mudando para República de Sérvia e Montenegro. Mesmo com a prisão de Radovan Karadizic e Ratko Miladic, isso não significa que os problemas acabaram. É esperar para ver.

                                                                              Prof. Eddy Carlos.

Fontes para consulta.
ARRUDA e PILETTI, José Jobson de Andrade e Nelson. Toda a História. História Geral e História do Brasil. Editora Ática. São Paulo, 1995.
BARNETT, Correli (Org.). Os Generais de Hítler. Jorge Zahar Editor. Rio de Janeiro, 1991.
CLARK, Philip. A Revolução Russa. Coleção Guerras que Mudaram o Mundo. Editora Ática. São Paulo, 1993.
FOLHA DE SÃO PAULO. Atlas da História do Mundo. Empresa Folha da Manhã. São Paulo, 1995.
HILLS, Ken. A Primeira Guerra Mundial. Coleção Guerras que Mudaram o Mundo. Editora Ática. São Paulo, 1995.
HILLS, Ken. A Segunda Guerra Mundial. Coleção Guerras que Mudaram o Mundo. Editora Ática. São Paulo, 1996.
HÖHNE, Heinz. SS, a Ordem Negra. Biblioteca do Exército e Laudes Editores. Rio de Janeiro, 1970.

E-mail: eddycarlos6@gmail.com
Blog: conhecendoahistoriaprofeddy.blogspot.com.br




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