sexta-feira, 30 de março de 2018

Por quê Barrabás?

                    O ator Harry Guardino (à frente), interpreta Barrabás no filme "Rei dos Reis".
                                                FONTE: www.adorocinema.com


               Após o cativeiro na Babilônia, que durara 70 anos, os judeus recebem permissão de regresso à terra natal, de Ciro, Rei dos Persas que havia conquistado o Império Caldeu. De volta tratam de reorganizar a velha pátria, submissa, porém, à autoridade persa. Com a vitória de Alexandre da Macedônia na Batalha de Isso em 330 a. C., todo o Império Persa e seus vassalos passam a ter como senhores os macedônios. Alexandre não deixa herdeiros e após a sua morte o vasto império é dividido entre seus generais, dentre os quais Ptolomeu, que inaugura uma nova dinastia no Egito, e Seleuco, que passa a governar a Síria (antiga Aram) e os territórios que um dia formaram o Reino de Israel, de Davi e Salomão. A implantação desses reinos e outros que foram formados pelos generais macedônios deram origem ao que chamamos de mundo helenístico, o qual agregava elementos culturais de gregos, macedônios em detrimento dos povos orientais. Com imposição da cultura helênica e sua religião, alguns submissos se revoltam. É o caso dos judeus que liderados pelos Macabeus conseguem após diversas batalhas levantar o jugo dos dominadores, reconquistando a independência política, ressurgindo o Reino da Judéia. Os vitoriosos inauguram uma dinastia judaica totalmente diferente da que está narrada na Bíblia, ou seja, a dinastia de Davi, e passam a se chamar Hasmoneus, governando por 140 anos, até um conflito interno acabar com a nação. Na primeira metade do século I a. C., dois descendentes dos Hasmoneus entraram em guerra civil pelo poder, Aristóbulo e Hircano II, sendo que o segundo acaba derrotado e o primeiro aclamado rei. Hircano resolve pedir auxílio aos romanos, a nova potência militar em ascensão e em 63 a. C., Pompeu entra triunfalmente em Jerusalém, depondo Aristóbulo e enviando-o como prisioneiro à Roma. Hircano, porém, torna-se vassalo de Roma pagando tributo aos conquistadores. Pouco tempo depois, o sobrinho de Hircano, Antígono usurpa o trono com a ajuda dos Partos (persas). Com a intervenção romana e a derrota dos Partos, os romanos entregam o trono da Judéia a Herodes, estrangeiro, mas casado com uma princesa Hasmonéia.  No ano 40 a. C. o Senado romano confirma o título de “Rei dos Judeus” para Herodes, também chamado “o Grande”. Toda a estrutura de poder, administração, além da chefia do culto religioso foi usurpada e adaptada aos interesses de Herodes e dos romanos, que só exigiam impostos e lealdade á Roma. Até mesmo o Sumo Sacerdote passa a ser indicado e não mais seguindo a linhagem antiga.
             Com a dominação romana, através de Herodes a sociedade judaica se divide em grupos: os Fariseus, que seguiam à risca a Lei de Moisés, mas interpretavam-na de acordo com seus interesses, odiavam os romanos, mas faziam de tudo para ficar de bem com as autoridades; Os Saduceus, outro grupo religioso que seguia a lei mosaica, mas discordavam dos Fariseus no que dizia respeito à imortalidade da alma; os Escribas, doutores da Lei, responsáveis pelos Livros Sagrados e que oscilavam entre os dois grupos anteriores; os Essênios, pessoas e cidadãos que nada possuíam ou perderam com a ocupação romana e decidiam viver no Deserto em permanente fase de penitência e oração (o integrante desse grupo que se destaca é João Batista); e os Zelotes, grupo que resolve pegar em armas para combater Herodes e a ocupação romana e pretendiam restabelecer a glória dos Macabeus. Desses grupos, os Zelotes possuíam conotação totalmente política, desvinculada de quaisquer caracteres religiosos.  Para facilitar o domínio e a administração, Herodes passa a cooptar a elite judaica, sobretudo a religiosa, mas enfrenta a oposição armada dos Zelotes. Já no início de seu governo Herodes sufoca uma rebelião liderada por Judas, o Galileu próximo do Monte Hermôn (parte das Colinas de Golã). O massacre pelas forças de Herodes influencia o fortalecimento dos Zelotes, que utilizando-se de táticas de guerrilha fustiga constantemente os soldados herodianos e as guarnições romanas.
                   Durante o advento de Jesus, o Messias, ainda na sua infância, morre Herodes, o “Grande” e o reino é dividido entre três de seus filhos. À Herodes Arquelau coube a Judéia, Iduméia e Samaria, à Herodes Antipas coube a Galiléia e a Peréia; e à Herodes Filipe coube a Ituréia e a Traconítides. Todavia, Herodes Arquelau suplantou logo de imediato o pai em crueldade e, alegando que isso influenciasse mais ainda os Zelotes, os romanos o depõe, enviam-no ao exílio e assumem o controle direto da Judéia, através dos Procuradores (Governadores). O quinto deles foi Pôncius Pilatus, o qual exercerá um papel de destaque na História do Cristianismo. Entretanto, os Zelotes continuavam sua campanha armada e num confronto com as legiões o líder rebelde Barrabás cai prisioneiro e fica à espera de julgamento e crucificação, método da pena capital reservado aos povos subjugados. Entrementes, Jesus Cristo, agora no seu ministério Divino, pregando a Palavra, curando enfermos e realizando milagres diversos passa a incomodar a elite judaica, principalmente os Fariseus. Lembremos que estes, os Saduceus e os Escribas compunham o Sinédrio, a Suprema Corte, liderada pelo Sumo Sacerdote, na época Caifás. Pela Lei de Moisés, Cristo tinha que morrer por que dizia-se Filho de Deus e isso era considerado blasfêmia. Como não podiam condenar ninguém à morte, proibido pelas autoridades romanas, adotam uma estratégia de acusar Jesus de crime de usurpação ao proclamar-se “Rei dos Judeus”. Como já sabemos, traído por um de seus discípulos, Jesus é preso e levado à presença de Caifás no Sinédrio, onde é “interrogado”. Levado à presença de Pilatos, este percebe que se trata de uma trama dos religiosos e tenta libertar Cristo, em vão. Mesmo mandando açoitar Jesus, devido à insistência dos Fariseus, estes exigem que o mesmo fosse crucificado. Ainda relutando e ao ouvir dos Fariseus, “que esse homem se proclamou rei e quem se faz rei vai contra César”, Pilatos percebe também a situação delicada em que se encontrava, pois se libertasse Jesus, os Fariseus o acusariam perante Roma. Mais uma tentativa de Pilatos não dá resultado. Como era época da Páscoa e era costume libertar um prisioneiro, O governante manda buscar Barrabás e o exibe junto com Cristo para que a turba já numerosa escolhesse quem seria libertado. Porém, no meio da multidão, os Zelotes infiltrados gritam mais alto e somado à insistência dos Fariseus, justamente aquele que Pilatos não poderia soltar é libertado. Alguns historiadores e arqueólogos, religiosos ou não, afirmam que Barrabás tinha o primeiro nome igual ao de Cristo, ou seja os dois se chamariam “Jesus”. Confirmado ou não, os Zelotes conseguiram a libertação de seu líder enquanto que o Messias seguia para o Calvário para ser crucificado junto com outros dois prisioneiros, descritos na Bíblia como “ladrões”, mas que na realidade eram Zelotes capturados junto com Barrabás.
             No ano 66 d. C., os Zelotes iniciam uma ampla campanha para combater a ocupação romana e após 4 anos de guerra, são derrotados e muitos são os crucificados, enquanto que Jerusalém e o Templo são destruídos. Como também era época da Páscoa em que muitos judeus de outras partes do mundo se reuniam, estima-se, entre os mortos pelos romanos, mais de 500.000, junto com os Zelotes, segundo o depoimento de Josefo, contemporâneo da revolta. Em 135 d. C., com a última revolta dos Zelotes, o imperador romano Adriano decreta a desjudaização da Palestina, dando início à Diáspora que iria durar quase 2.000 anos. Em fins do século XIX, o judeu austríaco Theodor Herzl publica “O Estado Judeu”, em que pregava o direito ao retorno dos judeus aos territórios bíblicos. Em 1947, a ONU, sem consultar os árabes, decide dividir o território da Palestina em dois Estados: um judeu e um palestino. O resultado dessa decisão nós já sabemos há mais de 50 anos. 


                                                                                                                      Eddy Carlos.

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