terça-feira, 4 de junho de 2019

Saint-Domingue.


                       Batalha em San Domingo, de January Schudolski.(1797-1875).
                                       FONTE: www.pordentrodaafrica.com

                Perto de completar uma década, um episódio trágico ocorrido na América Central, além de chocar o mundo pela devastação causada, ocupou constantemente os espaços da mídia, repercutindo também no Brasil e, principalmente na região valeparaibana. Trata-se do terremoto que arrasou a capital do Haiti, Porto Príncipe, causando aproximadamente 200 mil mortos entre os haitianos, além de 20 brasileiros, sendo 18 militares do Exército Brasileiro, um alto funcionário da ONU, Luiz Carlos da Costa e a médica fundadora da Pastoral da Criança Zilda Arns. Dos militares vitimados, 10 pertenciam ao 5º BIL (Batalhão de Infantaria Leve) de Lorena, o que estabelece, portanto, uma conexão entre o Vale do Paraíba e o Haiti, uma vez que os mesmos integravam a força de paz da ONU, a MINUSTAH, “chefiada” pelo Brasil. Como afirmado, a tragédia ocorrida no pais caribenho, foi destaque nos diversos meios de comunicação na época e, para que nossos leitores conheçam um pouco mais sobre o Haiti, devemos voltar no tempo e nas suas origens históricas.  
               O Haiti e a República Dominicana ocupam a ilha chamada Hispaniola, nome dado pelo genovês Cristóvão Colombo quando este “descobriu” a América em 1492, tomando posse em nome dos reis católicos da Espanha, Fernando e Isabel. Cem anos mais tarde, a população autóctone havia sido exterminada na ilha, bem como os astecas, maias e incas durante a conquista empreendida pelos espanhóis. Em 1697, através do tratado de Rijswijk, a Espanha cede à França a parte ocidental de Hispaniola, onde os franceses formam a colônia de Saint-Domingue, cuja atividade econômica baseava-se no trabalho escravo de negros importados da África. No século XVIII, produzindo açúcar, café e cacau, a colônia de Saint-Domingue auferia mais lucros para a França do que o Quebec, outra colônia francesa na América, esta no Canadá que a França perderia para a Inglaterra em 1763 após a Guerra dos Setes Anos. Nesse contexto, a Europa vivia o chamado século das luzes proporcionado pelos ideais do Iluminismo, influenciando mais tarde a eclosão da Revolução Francesa, iniciada em 1789. A revolta que pôs fim à monarquia na França com a execução de Luís XVI, repercutiu também nas colônias do Ultramar e, em Saint-Domingue, em 1791, precisamente no dia 14 de agosto os escravos se rebelam contra os senhores brancos matando-os juntamente com seus familiares a golpes de machete. Liderados por Léger-Félicité Santhonax e François Dominique Toussaint–Louverture, os negros obtêm a vitória contra os últimos senhores, que conseguem fugir da ilha, e comemoram a abolição da escravidão em 29 de agosto de 1793.
               Entretanto, na Europa os governos monárquicos formam diversas coalizões para combater a França revolucionária, passando a atacar também suas colônias. Sendo assim, a Espanha, a partir de sua possessão na parte oriental da ilha (atual República Dominicana) e a Inglaterra ocupam Saint-Domingue e passam a combater os ex-escravos. Mesmo em guerra civil, em guerras contra as monarquias absolutas na Europa, a França consegue enviar tropas para defender sua possessão, contra o avanço de espanhóis e ingleses. Diante da situação, o ex-escravo que liderou a revolta negra, Toussaint-Louverture passa a apoiar os franceses, chegando a Comandante-Chefe das forças conjuntas da colônia e das francesas e, em 1801 com a vitória sobre os invasores torna-se Governador Geral de Saint-Domingue, ocupando inclusive a parte espanhola da ilha. Porém, com o golpe de 18 de Brumário, Napoleão Bonaparte consolida seu poder na França e, num gesto que agrada os espanhóis, mas contraria os ex-escravos do Caribe, declara nula a ocupação da parte oriental efetuada por Toussaint, que em “reconhecimento” pelos serviços prestados, é considerado como inimigo por Napoleão, que envia mais tropas, comandadas pelo cunhado Charles Leclerc, com a missão de depor Toussaint do poder e restaurar a ordem na colônia. Iniciando-se novos combates, Toussaint propõe trégua aos generais, que quebrando o acordo o prendem e, em 1803 é executado na França. Embora, a Revolução Francesa que “gerou” Napoleão fosse embalada, pelos ideais iluministas de “Liberdade, Igualdade e Fraternidade”, os mesmos não valiam para os escravos das colônias e, diante da pretensão de Bonaparte de restabelecer a escravidão na colônia, os negros revoltam-se novamente e, liderados por Jean-Jacques Dessalines consegue a vitória sobre as tropas francesas que capitulam em novembro de 1803. Em janeiro de 1804, Dessalines declara a independência de Saint-Domingue, agora com o nome de Haiti, nome de origem aruaque. Após reocupar a parte oriental da ilha, a Espanha perde-a novamente quando em 1822, o presidente haitiano Jean-Pierre Boyer conquista toda a ilha. No ano de 1844 uma revolta derruba Boyer e é proclamada a independência da República Dominicana. Desse período em diante, o Haiti sempre viveu períodos de instabilidade política e intervenções americanas. Entre 1915 e 1934, os Estados Unidos ocuparam o Haiti, com o pretexto de defender interesses americanos.
               Após um longo período de instabilidade política, assume a chefia da nação o Coronel Paul Magloire, eleito em 1950. Este consegue desenvolver a agricultura e a industrialização do Haiti, além de reconciliar-se com a República Dominicana. Novo período, porém breve, de instabilidade política se segue e nas eleições de 1957 vence o pleito o médico François Duvalier. Conhecido como Papa Doc, Duvalier implanta uma ditadura feroz e, apoiada na sua guarda pessoal, os tontons macoutes, inicia violenta repressão com prisões torturas e execuções sumárias contra inimigos políticos, principalmente esquerdistas. Inicialmente contrários á atitude do Papa Doc, os EUA dariam todo apoio ao ditador haitiano após a Revolução Cubana. Essa mudança de posição americana deve ser entendida no contexto da Guerra Fria, pois após Cuba ter aderido à esfera de influência da União Soviética, o governo americano, apesar de empunhar  a bandeira da democracia, prefere tolerar e até mesmo sustentar o regime totalitário de Duvalier, do que correr o risco de um novo pais socialista no Caribe. A partir de 1964, François Duvalier proclama-se presidente vitalício, e com a oposição exterminada governa até a morte em 1971, sendo substituído pelo filho Jean-Claude Duvalier, o Baby Doc. Também apoiado pela milícia extremista criada pelo pai, o Baby Doc manteve a ferros o Haiti, até que a revolta popular em 1986, o obrigou a renunciar e fugir para a França, uma vez que tinha perdido o apoio americano. Assume o poder provisoriamente o General Henri Namphy, iniciando novo período de perturbações políticas. Nas eleições presidenciais de dezembro de 1990, vence o então padre salesiano Jean-Bertrand Aristide, deposto em setembro de 1991 em um golpe de Estado chefiado pelo General Rauol Cedras. Em apoio a Aristide a organização dos Estados Americanos (OEA), a ONU e os EUA impõe sanções econômicas sobre o Haiti. Depois de negociações infrutíferas, a ONU decreta o bloqueio total ao Haiti e autoriza o governo americano a liderar uma força multinacional para invadir a ilha e reempossar Aristide, o que ocorre em setembro de 1994. O embargo econômico, no entanto, arrasa a economia do país, contribuindo para aumentar as convulsões internas. Após esse período, o Haiti não conseguiu reerguer-se economicamente e, nas eleições de 2000 vencidas por Aristide, as suspeitas de fraudes aumentaram, elevando as tensões políticas que iriam explodir em fevereiro de 2004. Com o retorno de Aristide em 1994, foram desmanteladas as Forças Armadas locais, para prevenirem futuros golpes, mas cada líder acabou por criar grupos  armados diversos que exigiam a renúncia  do ex-padre em 2004.  E foram tais grupos, alguns inspirados nos antigos tontons macoutes que iniciaram a revolta contra Aristide, que esperando novamente apoio americano prometeu resistir na capital haitiana. Realmente um helicóptero militar dos EUA aterrisou em Porto Príncipe, mas somente para retirar Aristide contra sua vontade e enviá-lo para a África do Sul, onde conseguiu asilo político.
               Sendo assim, para restaurar a ordem e pacificar o Haiti e desarmar os grupos paramilitares, chamados de gangues, a ONU decide enviar para o país caribenho uma missão de paz. Com duas “batatas quentes” na mão para resolver no Oriente Médio (Iraque e Afeganistão), os EUA abrem mão de chefiar a missão. Para comandar então a Missão das Nações Unidas para a Estabilização no Haiti (a MINUSTAH) a ONU encarrega o Brasil que designa o General Augusto Heleno Ribeiro Pereira, do Exército como chefe da força de paz em conjunto com outros países. Com o efetivo de 1.300 homens, o Exército Brasileiro, dentro da Minustah, aos poucos consegue dominar os grupos armados do Haiti e prendendo seus lideres. Para a sociedade haitiana, alguns entendem que a missão da ONU, de fato trará prosperidade para a ilha, para outros, no entanto, a Minustah é meramente uma tropa de ocupação que teria freado a revolta popular. O fato, porém, principalmente com a presença brasileira prestando serviços essenciais como educação, higiene, saúde e cidadania, é que tentava-se combater a externa miséria em que vivem os haitianos, causado pelos governos do Papa Doc e seu filho e agravadas pelo bloqueio econômico dos anos 90. Como conseqüência, o Haiti tornou-se o país mais pobre e miserável da América, mais pobre até do que Cuba que ainda sofre com o embargo americano.
            Contudo, todo o esforço empreendido pela missão da ONU, com destaque para o Exército Brasileiro, alcançando considerável índice na melhoria das condições dos haitianos, foi arrasado no dia 12 de janeiro de 2010, com o terremoto citado no início deste texto. Atingindo 7,3 graus na escala Richter, o tremor arrasou a capital, como já mencionado. Até mesmo, o presidente haitiano René Preval perdeu casa e palácio de governo, destruídos pelo fenômeno. Os militares vitimados com a tragédia no Haiti eram: os saldados Rodrigo Augusto da Silva, de 24 anos; Antonio José Anacleto, 23 anos; Tiago Anaya Detimermani, também de 23 anos e Felipe Gonçalves Júlio, de 22 anos. Perderam a vida também os cabos Douglas Pedrotti Neckel, 24 anos, Washington Luis de Souza Seraphin, 23 anos; os sargentos Leonardo de Castro Carvalho, 29 anos, Davi Ramos de Lima, 37 anos e Rodrigo de Souza Lima, 23 anos e o Tenente Bruno Ribeiro Mário de 26 anos. Mencionamos somente os que pertenciam ao batalhão de Lorena. Os corpos foram trazidos para o Brasil e homenageados com honras militares em Brasília e Lorena. O autor do presente artigo conheceu brevemente o soldado Tiago Anaya na casa de seu sogro no Embaú, seis meses antes de embarcar para o Haiti. O jovem Tiago estava com uma grande expectativa para a missão que iria efetuar e, tanto ele quanto a esposa planejavam o futuro do casal quando completasse o seu período no Caribe. A família aguardava o seu retorno ansiosamente, previsto para o dia 16 de janeiro de 2010 e programava no Embaú e no Embauzinho, onde residem os pais, grande festividade pela missão comprida. O soldado Anaya, como era conhecido no 5º BIL, de Lorena, completou sua missão no Haiti. Infelizmente não conseguiu realizar seus sonhos de felicidade e prosperidade no Brasil, interrompidos brutalmente pela fúria da natureza. Até a próxima.
                                                                            Eddy Carlos.


Dicas para consultas.
ARRUDA e Piletti, José Jobson e Nelson. Toda a História. Editora Ática, São Paulo, 1995.
FOLHA de São Paulo. Atlas da História do Mundo. Publifolha. São Paulo, 1995.
MARQUESE, Rafael de Bivar. Feitores do Corpo, Missionários da Mente. Senhores, letrados e o controle de escravos nas Américas (1660-1860). Companhia das Letras. São Paulo, 2004.
PRONAP. Coleção SIBRAC. Volume 4. Nova Central Editora. São Paulo, 1995.

domingo, 2 de junho de 2019

Eslavos do Sul.


Canhão croata dispara contra posições sérvias; Guerra da Bósnia (1992-1995). Imagem da internet.

                Durante a sua agonia o Império Romano, foi invadido, destruído e ocupado, na parte ocidental por povos bárbaros como, suevos, francos, vândalos, visigodos, hérulos, ostrogodos, burgùndios, alamanos, etc.; todas de origem germânica, que fundaram reinos independentes, catequizados, pela Igreja e que originariam alguns países da Europa atual. A parte oriental do Império Romano sobreviveria, adquirindo nova identidade, conhecida como Império Bizantino, até 1453 d.C, quando a capital Constantinopla é conquistada pelos turcos de Mehmet II al Fatih, o Conquistador. Porém, mesmo com a reconquista de da península itálica por Justiniano, algumas invasões ocorrem no setor oriental, com a conquista de territórios ao longo do Mar Adriático e da cadeia de montanhas conhecidas como Balcãs. Essa nova onda de invasões foi realizada por eslavos, povos de origem indo-européia, oriundos, segundo alguns autores dos Montes Cárpatos, ou das imediações do Rio Danúbio, segundo outros. Os eslavos estão divididos em 3 grandes grupos: eslavos ocidentais, como russos, bielo-russos e ucranianos; e meridionais, integrando, búlgaros, sérvios, croatas e eslovenos. Os russos dominaram o atual Leste Europeu e a Sarmátia (nome antigo da região entre as atuais Ucrânia e Rússia), enquanto que os eslavos meridionais em 560 d.C, começam a invadir o território romano, ocupando a Macedônia, para em 640 apoderem-se da Dalmácia. No final do século VIII, formavam-se os reinos búlgaro, croata e sérvio, no sudeste da Europa.
                  Com a expansão do cristianismo, os eslavos meridionais, dentre eles os sérvios, são convertidos finalmente no ano de 868, à Igreja de Roma até o cisma de Constantinopla em 1054, que separa a Igreja Ortodoxa da influência do papa. Durante a expansão do Império Otomano nos Balcãs, sérvios e bósnios são derrotados pelos turcos na batalha de Kosovo em 1389, enfraquecendo o Reino dos Sérvios até o seu desaparecimento após as campanhas de Mehmet II. Com a anexação dos estados dos sérvios e bósnios, os mesmos permanecem sob jugo dos turcos até meados do século XIX. Em 1804, os sérvios iniciaram um levante contra as autoridades turcas, exigindo autonomia dentro do Império Otomano, e mais tarde a independência. Comandados por Kara George, os rebeldes sérvios lutaram até a aniquilação de suas forças pelos turcos e a reocupação total da Sérvia em 1813. Após a Guerra da Criméia (1854-1856), as potências europeias, França, Inglaterra e Áustria impuseram um acordo para a Rússia e a Turquia. Em 1878, como resultado, a Sérvia e Montenegro tornam-se independentes, enquanto que a Bósnia-Herzegóvina é entregue para administração do Império Austro-Húngaro, ficando apenas a Macedônia sob domínio turco. No ano de 1908, a Áustria  anexa a Bósnia, contrariando os interesses da Sérvia que, juntamente com outros países balcânicos consegue expulsar os turcos da Macedônia, dividindo-a com a Grécia e a Bulgária em 1913. Como afirmado, a Áustria anexou a Bósnia-Herzegóvina, ferindo interesses sérvios, cujo nacionalismo instigado pela Rússia explodiu no dia 18 de junho de 1914. Nesse dia, o herdeiro do trono austro-húngaro, Franz Ferdinand e a esposa Sophie visitavam Sarajevo, capital da Bósnia, o que foi considerado um ultraje para os sérvios. Dois estudantes sérvios Gravilo Prinzip e Tchabrinovitch assassinaram o casal, cumprindo uma conspiração acertada, segundo autoridades austríacas, em Belgrado, capital da Sérvia. O episódio foi a causa imediata da Primeira Guerra Mundial em que a Sérvia fora invadida pela Áustria e socorrida pela Rússia; para socorrer a Rússia entraram França e Inglaterra e para socorrer a Áustria, intervieram o Império Alemão (II Reich) e o Império Otomano.
                  Encerrado o conflito mundial que determinou o desaparecimento dos grandes impérios centrais como o alemão, austríaco e o turco, e redesenhou o mapa da Europa no ano de 1918, é proclamado o Reino dos Sérvios, Croatas e Eslovenos, cujo monarca é Pedro I, da Sérvia. Com o falecimento deste assume Alexandre I, que reprime logo um movimento separatista croata. Com a vitória, o monarca altera o nome do país para Iugoslávia, que na língua eslava significa “eslavos do sul”. Em 1941, a Iugoslávia adota uma posição pró-Eixo, durante a Segunda Guerra Mundial, através da decisão do Príncipe Paulo; o que revolta um grupo de patriotas que depõe o monarca, assumem o poder e assinam tratado de não agressão com a URSS. Tal fato motivou Hitler a invadir a Iugoslávia, bombardeando Belgrado com o auxílio de búlgaros, húngaros e austríacos. Em 1943, ainda no cenário da Segunda Guerra Mundial, é deflagrada uma guerra civil entre os monarquistas, apoiados pelos nazistas e liderados por Draja Mihailovic e os partisans comunistas, comandados pelo croata Josip Broz, o Marechal Tito. Estes saem vitoriosos e, em 1945, quando vencem os monarquistas, expulsam os alemães e instalam a República Popular da Iugoslávia. Após assumir o novo governo, Tito inicia o processo de civilização e manda executar Mihailovic. A nova nação é composta então de seis repúblicas eslavas, que apesar de pertencerem ao mesmo grupo étnico, diferem-se pela religião. A composição da Iugoslávia era de: Sérvia, Montenegro e Macedônia, praticantes do credo cristão ortodoxo; Croácia e Eslovênia, seguidoras do rito católico romano, e Bósnia-Herzegóvina, mulçumana. Inicialmente alinhado à URSS stalinista, Tito rompe com Moscou após vários desentendimentos e define um modelo próprio de socialismo. Apesar de considerar a medida como uma afronta, a URSS não invade a Iugoslávia, como faria em 1956 com a Hungria e em 1968 com a Tchecoslováquia. Na década de 1960 Tito implanta uma série de reformas com o objetivo de alcançar o “socialismo de mercado”, cujo resultado foi crise financeira, desemprego, inflação e endividamento externo, devido às peculiaridades de cada sistema econômico, diametralmente opostos.
                  Pouco antes de sua morte em 1980, Tito cria o sistema de presidência rotativa, que deveria ser exercida por cada uma das seis repúblicas que compunham a federação. O que Tito queria evitar ocorreu na década de 1990; em maio de 1991, era a vez do croata, Stipe Mesic, assumir a presidência da Iugoslávia. Como os sérvios impediram a posse, foi convocado um plebiscito. No dia 25 de junho de 1991, a Croácia e Eslovênia declararam sua independência, sendo reagida pela Sérvia com uma guerra civil de sete meses. A Iugoslávia, sonhada por Tito foi “sepultada” em 15 de janeiro de 1992 com o reconhecimento da Eslovênia e Croácia, por parte da Europa e pela ONU. Em março de 1992, seguindo o exemplo, a Bósnia e a Macedônia também declararam a independência, enquanto Montenegro permanecia fiel à Sérvia  e formariam a Nova Iugoslávia. A situação da Macedônia foi mais tranquila, pois a população sérvia em seu território não atingia 1%, mas o mesmo não ocorreu com a Bósnia. A declaração de independência provocou outro conflito, devido ao fato de a minoria sérvia na região, apoiado pelo Exército da Nova Iugoslávia passou a atacar os bósnios e croatas locais, conseguindo cercar Sarajevo. Com o avanço rápido dos sérvios, apoiados pela Rússia que defendia o embargo de armas aos bósnios, a ONU criou as áreas “protegidas” na Bósnia, como, além da capital, as cidades de Tula, Bihac e Srebrenica, sem sucesso. Como croatas na Bósnia, liderada por Mate Boban, também tornaram-se alvos dos sérvios, o Presidente Franjo Tudman ordena a intervenção da Croácia entrou no conflito entre 1993 e 1994, pulverizando as forças inimigas na forma de um  “rolo compressor croata”. Em resposta os sérvios bombardearam a histórica cidade portuária medieval de Dubrovinic, na Dalmácia, região croata no Mar Adriático, causando indignação internacional.
                  Entretanto, o que causou repulsa mundial foi a prática de “limpeza étnica”, promovida pelos sérvios na Bósnia. Na queda de Srebrenica, “protegida” pela ONU, por volta de 1994, cerca de 8.000 pessoas, entre velhos, mulheres e crianças foram executadas pelos sérvios, ordenada por Ratko Miladic, comandante militar sob as ordens de Radovan Karadizic, considerado pleo Ocidente como o “carniceiro dos Balcãs”, apoiado por sua vez por Slobodan Milosevic, presidente da Iugoslávia. Diante das atrocidades, a ONU autorizou a OTAN a bombardear posições sérvias, forçando um armistício que resultou no Acordo de Dayton, mediado pelos EUA, criando uma federação bósnio-servo-croata na Bósnia no ano de 1995. O conflito causou mais de 250 mil mortos. Porém, em 1999, a região de Kosovo pleiteia a independência e novo conflito se inicia entre os sérvios e a população de origem albanesa. Temendo novas atrocidades, a ONU e a OTAN intervém, bombardeando, além das posições sérvias, a própria Belgrado, irritando a Rússia, tradicional aliada. Dessa forma, russos também enviam contingentes a Kosovo, após a retirada da Sérvia. Em 2001, Slobodan Milosevic é derrotado nas eleições presidenciais, por políticos alinhados ao Ocidente e entregue ao TPI (Tribunal Penal Internacional). No ano seguinte, o novo governo, pressionado pelo mundo “livre”, suprime o nome “Iugoslávia”, mudando para República de Sérvia e Montenegro. Mesmo com a prisão de Radovan Karadizic e Ratko Miladic, isso não significa que os problemas acabaram. É esperar para ver.

                                                                              Prof. Eddy Carlos.

Fontes para consulta.
ARRUDA e PILETTI, José Jobson de Andrade e Nelson. Toda a História. História Geral e História do Brasil. Editora Ática. São Paulo, 1995.
BARNETT, Correli (Org.). Os Generais de Hítler. Jorge Zahar Editor. Rio de Janeiro, 1991.
CLARK, Philip. A Revolução Russa. Coleção Guerras que Mudaram o Mundo. Editora Ática. São Paulo, 1993.
FOLHA DE SÃO PAULO. Atlas da História do Mundo. Empresa Folha da Manhã. São Paulo, 1995.
HILLS, Ken. A Primeira Guerra Mundial. Coleção Guerras que Mudaram o Mundo. Editora Ática. São Paulo, 1995.
HILLS, Ken. A Segunda Guerra Mundial. Coleção Guerras que Mudaram o Mundo. Editora Ática. São Paulo, 1996.
HÖHNE, Heinz. SS, a Ordem Negra. Biblioteca do Exército e Laudes Editores. Rio de Janeiro, 1970.

E-mail: eddycarlos6@gmail.com
Blog: conhecendoahistoriaprofeddy.blogspot.com.br




Saint-Domingue.

                       Batalha em San Domingo, de January Schudolski.(1797-1875).                                        FONTE: www.pord...